A ascensão da homeopatia
SBHOLOS - Administrador | nov 21, 2017 | Blog
Cada vez mais estudos mostram que a homeopatia pode ser eficaz contra doenças crônicas e na prevenção de epidemias. Mas ninguém sabe explicar por que.
Goiás enfrentou a pior epidemia de dengue de sua história no ano passado, com um aumento de 563% nos casos da doença em relação a 2012. Mas, em 25 municípios, houve uma queda de até 65% nos registros de novas infecções. A razão para o descompasso estaria em duas gotinhas de um complexo homeopático, distribuídas em postos de saúde a 200 mil pessoas dessas cidades. O remédio a conta-gotas não evita a infecção, mas reduz os sintomas ao ponto de o infectado nem perceber que contraiu o vírus. Os resultados nada homeopáticos da ação, liderada pela Secretaria Estadual de Saúde, levaram outros 75 municípios a aderir à campanha no final do ano passado. Em 2014, moradores de cem cidades goianas terão à disposição as gotinhas quatro vezes ao ano. “Como não têm contraindicação, todo mundo pode tomar, incluindo bebês e gestantes”, diz o médico Nestor Furtado, diretor-geral do Hospital de Medicina Alternativa, de Goiânia, onde é feita a medicação. Outra vantagem é o custo: um frasco com 300 doses custa R$ 1,60, menos que um cafezinho.
Outros locais, como São José do Rio Preto, em São Paulo, e Macaé, no Rio, também distribuíram a medicação contra a dengue, desenvolvida pelo homeopata pediátrico Renan Marino, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.
Marino foi o primeiro a lançar a ideia. Em 2001, uma ação na cidade paulista deu o medicamento a 20 mil pessoas de um dos bairros com mais focos do mosquito e ajudou a derrubar em 80% o registro de novas infecções – sem nenhum de dengue hemorrágica. O mesmo ocorreu em Macaé, que reduziu em 62% os casos de dengue entre 2007 e 2009.
São José do Rio Preto voltou a fazer a campanha em 2007, mas o secretário de Saúde do Estado na época entrou com um pedido na Justiça para cancelar o mutirão porque não havia comprovação científica da eficácia das gotinhas. A campanha cessou, mas a população não parou mais de recorrer ao homeopático antidengue, aprovado pela Anvisa um ano depois da polêmica. Testes feitos com o composto mostraram que o número de plaquetas em ratos aumentou três vezes após seu uso. Plaquetas em alta ajudam na coagulação sanguínea, o que explica o efeito na prevenção da dengue hemorrágica.
A história do controverso remédio contra a dengue ilustra as dificuldades que a homeopatia enfrenta até hoje. Apesar de ser o segundo sistema médico mais usado do mundo, perdendo apenas para a alopatia, ela ainda luta para dar aval científico aos seus princípios pouco convencionais. A medicina tradicional combate uma doença com remédios que provocam o oposto dos sintomas. A depressão é tratada com antidepressivos, uma inflamação com anti-inflamatórios – e assim por diante. Já a homeopatia usa substâncias que causam os mesmos efeitos da doença. A beladona, por exemplo, é uma planta que causa febre alta e é receitada para tratar… febre alta. “Quando uma doença se instala, é sinal de que o sistema imunológico não consegue mais reconhecer a doença como um inimigo”, diz o médico homeopata Marcus Zulian Teixeira, professor de Medicina da USP. “A homeopatia dá ao paciente uma doença artificial para tratar uma doença real. É como dar um tapa no organismo e dizer: “Acorda!”.
Mas, para evitar que a febre piore muito – e o tapa vire um nocaute -, a beladona e os outros princípios ativos da homeopatia são diluídos em água. Na homeopatia, a diluição é a alma do negócio – e, para os críticos, seu grande problema. Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia, criou um sistema de diluição que consiste em diluir uma gota do princípio ativo em 99 gotas de água, sucessivas vezes. A diluição final é representada pelo número de centesimais hahnemannianas (CH). Os remédios homeopáticos costumam estar a 30 CH, para não agredir o paciente. O problema é que, segundo as leis da química, uma diluição dessas não contém sequer uma molécula do princípio ativo. A diluição de qualquer matéria a mais de 12 CH é suficiente para que a solução vire pura água. E agora?
https://sbholos.org/a-ascensao-da-homeopatia/
A homeopatia
Origem: Criada pelo alemão Samuel Hahnemann no século 18 com base no princípio da semelhança descrito por Hipócrates no século 4 a.C..
Principais indicações: Tem eficácia comprovada para diversos tipos de problema, como alergias, diarreia infantil, dengue, enxaqueca e fibromialgia, transtornos de atenção (TDAH) e prevenção de infecções respiratórias.
Contraindicações: Não existem.
Teoria polêmica: A homeopatia é baseada na “lei dos semelhantes”: uma substância que causa determinado sintoma em uma pessoa saudável pode curar esses mesmos sintomas em um doente se for ingerida em doses muito pequenas.
Por que funciona: Segundo os defensores da prática, as diluições e agitações sucessivas serviriam para retirar o efeito danoso das substâncias usadas nos compostos homeopáticos, deixando restar apenas uma dose infinitesimal, que serve para alertar o sistema imunológico do paciente.
Por que não funciona: Críticos da homeopatia contestam a hipótese de que a água teria a capacidade de reter uma “memória” das substâncias nela diluídas. Até agora, a ciência não conseguiu reproduzir esses testes nem provar como essa suposta capacidade de reter informação tem algum efeitono organismo.
Fonte: Site Revista Super Interessante. Por Silvia Lisboa.

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